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Larissa
Malty
Ao refletir sobre nossa história e o teatro brasileiro, ressalto que a que se compreender história como fusão entre memória, investigação e invenção. Vez por outra confundo em minha vida, vidas que não são minhas. Tomo, emprestadas, estórias alheias. Vivo encantada, nessa tal ilha longínqua, que tanto procuravam os portugueses. Desde que cheguei aqui não parei de sentir saudade. Coisa deles, não minha. Coube em mim, então, uma velha do cerrado fazedora de chás e histórias. Digo histórias, porque são de estórias que se faz a história. Essa velha me disse um dia, que história e chá são fatos mergulhados em água quente, com ou sem açúcar, dependendo do autor. Fui, então, em busca de fatos. Descartei, de imediato, essa marca de 500 anos do descobrimento do Brasil, que isto não é fato. Fato é que somos fugitivos e nos escondemos uns nos outros. Somos misturados pela necessidade de sobrevivência. Além do Brasil, lá onde ele acaba, num pedaço de terra também fugitiva do continente, fui colher fatos para fazer este chá. São Luis do Maranhão - A Ilha. Localizada entre as águas do Norte, que nos fazem arrastar os pés no chão, e o fogo do Nordeste, que nos ensina a saltar de banda, a Ilha me propôs espalhar. Espalhei-me então, entre sombras e lendas, deserto e água salgada, a convite de todas as correntes do mar, que quanto mais soltam, mais prendem e assim por diante. El Rei veio ter comigo. Apareceu-me pela primeira vez sob grande tempestade e eu, no fundo da chuva como se no fundo do mar, ouvia minha voz dizer: - Vamos homens, coragem! Não tenham medo! Desçam!
O Encoberto começava a atuar em mim. Foi no Terreiro de Mina e no toque do tambor que iniciei a colheita dos fatos para essa infusão artística. Lá estava o terreno onde o Rei Touro aparecia, depois de sua última vida quando foi Portugal. Era lá que ele baixava. O fato é que El Rei Dom Sebastião, o tão Desejado em Portugal, aqui, no culto afro-brasileiro dos Terreiros de Mina, transforma-se em gentio e vem constantemente à terra, dançar com os seus filhos. De longe ouvem-se os tambores, pés batendo o chão, corpos doados a deus, re-ligando o mito à realidade. O que se vê, é um touro negro, estrela na testa, correndo, correndo, desfilando músculos sobre os Lençóis Maranhenses, com a força daquele Rei. E isso é lenda e fato: matéria-prima de chá. O Sebastianismo no Brasil, continuava inspirando esperança e sagrando a fé coletiva de um povo em seu futuro, para gosto de Agostinho da Silva, segundo o qual "o sebastianismo é a força capaz de ultrapassar todos os antagonismos de Leste e Oeste ou Norte e Sul, mostrando que a humanidade é una, como outrora mostrou ser uno o mar". A volta do Encoberto mostra uma faceta da relação dos populares do Brasil e seus deuses, indicando que a cultura brasileira valoriza e dedica-se não ao reino ou a governantes políticos humanos, mas as crenças e mitos que abordam o Xamanismo indígena, as crenças afro-brasileiras, o Espírito Santo, o Cristianismo num mesmo espaço e tempo. Depois de colher os fatos, transformá-los em chá ou em arte, seria inevitável. Já me via deixando de lado a lanterna, ou seja, pedindo licença à academia e dando os primeiros passos escuros da criação. O teatrar nos possibilita sempre ser cavalos de deus. Viver as profecias através da arte é mais uma vez mergulhar no labirinto de trevas, onde é impossível ater-se ao fio que conduz à luz, se não por meio da fé, desviando ao coração o conhecimento conquistado anteriormente no momento em que os livros iluminavam o caminho. Algumas vezes, entretanto, acudiam-me aqueles oportunos clarões de uma luz tão forte, capaz de revelar associações entre a ciência e a força, guiando, assim, meus passos. Refletindo em nome do ócio, em baixo de um pequizeiro, depois
de tomado o chá, e sendo brasileira que sou, aguardo em personagens
o Brasil do Quinto Império, que merece ser buscado em nossas crenças,
nossos ritmos, nossas saias, nossos pés.
Com o apoio da Universidade de Brasília, inserido no projeto "A UnB e os 500 anos", o projeto "Dom Sebastião - Rei de Portugal, Entidade Africana" objetivou a realização de um espetáculo teatral, um filme - curta-metragem e um livro, que abordassem o sebastianismo no Brasil através do culto africano dos Terreiros de Mina. O espetáculo estreou em outubro de 2000, estando em temporada até o fim de 2001. O Filme, que aborda as profecias de Bandarra, entendendo Bandarra como propõe Fernando Pessoa - "Um nome coletivo, pelo qual se designa, não só o vidente de Trancoso, mas todos quanto viram por seu exemplo, a mesma Luz", será lançado em 2001. O livro, que será editado pela EdUnB, refletirá potencialidades brasileiras enquanto Quinto Império, revelando a vivência deste mito através da arte. Larissa Malty é bailarina, roteirista e pesquisadora. O crédito das fotografias é de Nicolau El-Moor e Andrés de Gabriel. Contatos com a autora: larissamalty@hotmail.com. |
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