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revista de cultura # 11

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fortaleza, são paulo - abril de 2001

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O círculo dos homens: Kafka e a família
Luiz Antonio M. Magalhães
ag11kafka1.JPG (17915 bytes)1 - O corpo em cena 
Não era um sonho, atesta o narrador da novela A Metamorfose, no primeiro parágrafo da narrativa (1). Não era um sonho, percebe o protagonista da novela, Gregor Samsa, caixeiro-viajante, ao acordar transformado num inseto, num dia que continuaria sua rotina estafante de arrimo-de-família, numa vida toda voltada para o trabalho, vida cegada para o trabalho. 

Não é um pesadelo apenas: Gregor acorda mesmo transformado num inseto. No livro, há intensa vivência desse novo estado e desde os primeiros momentos do texto o lento conhecimento do peso, da textura, dos movimentos desse novo corpo vão revelando da maneira mais terrífica um desembotamento dilacerado dos sentidos. Um aprender a olhar as coisas a partir da sensação dessa vivência concreta da matéria de um novo corpo que ameaça uma nova vida e traz à tona o que se perdia na saturação do familiar, violentamente descentrado pela invasão do estranho. O que não deixa de ser feito e visto com forte bizarria, um estranhado bizarro sombrio, que por vezes esconde o humor que há no texto. 

Mas esse novo modo de ver o corpo, traçado de maneira impressionante em vários pontos da narrativa, tem o efeito de fazer enxergar o que se perdia na rotina da família. O que se lê pelo sentido de ordem anterior perceptível na desordem instaurada pela transformação. E se lê logo sem fôlego ou alívio pelo sonho que não há: a narrativa de certa forma é realista, de um terrível realismo, e o inseto é um inseto, Gregor, o protagonista, está virado inseto desde as primeiras linhas (2).

A presença monstruosa do filho Gregor no momento em que cumpre o papel de provedor da casa, foco de todas as aprovações, a partir do próprio pai, é o elemento estranho, infamiliar, a desestruturar a vida média de seu panorama cinzento. Virado em bicho, o personagem se contorce em angústia ante a aflição coletiva da família pelo seu atraso para o trabalho. Angústia que se amplia com a visita do gerente do lugar onde trabalha, que chega para lhe chamar aos deveres, ele, o funcionário exemplar. Mas, apesar de seu estado e de seu despreparo em lidar com o novo corpo, o seu senso de dever comparece. Como assinala o narrador, Gregor "não cogitava minimamente em abandonar sua família". Mais uma vez se eriça o sentido de responsabilidade, lembrança da sobrevida que o Gregor anterior vivencia, na rotina massacrante e sobressaltada a qual se adapta, para saldar dívidas do pai falido.

A humilhação da presença invasora e questionadora do gerente se amplia com a reprovação no ar vinda da própria família ou com o desespero justificado da mãe. E com a sua incapacidade de comunicação, que faz com que seu silêncio seja interpretado como uma recusa e sua fala também, o que revelam os comentários que dão conta de que sua voz era imperceptível para os humanos - voz metálica questionada como sendo de deboche - para aumento do desespero de Gregor.

O impressionante esforço do personagem para usar o corpo de maneira a virá-lo a ponto de abrir a porta trancada do quarto e apresentar sua justificativa é terrível, nessa ânsia por obter aprovação da família, do chefe.

O pânico causado pela presença de Gregor na sala é a um só tempo bizarro e tremendo. A fuga do gerente, o desespero da mãe e da irmã e sobretudo a agressividade do pai tornam o quadro dramático. Quanto mais Gregor Samsa se aproxima implorando compreensão, mais ativa o pânico e desperta o ódio do pai que, "implacável, o pressionava emitindo silvos como um selvagem", brandindo bengala e jornal ameaçadoramente. E aí o pai é o verdadeiro animal, a produzir ruídos bestiais. 

A primeira parte do livro vai se encerrar com o filho ferido pelo pai e sem conseguir dirigir direito seu corpo de inseto ao quarto para escapar dos golpes, sangrando bastante, deixando "manchas feias" na porta branca, indefeso e fragilizado, com as "perninhas [que] pendiam trêmulas no ar".

As manchas de uma substância vertida pelo seu corpo de inseto marcam a porta, seu corpo mal manobrado impede a fuga do chute certo do pai que o atira "sangrando violentamente" para dentro do quarto. A metamorfose - se irrompe logo nas primeiras palavras do texto -, só vai se revelando em sua força aos poucos, pela descoberta de movimentos e pela falta de saber como lidar com tais movimentos, por secreções e dores novas, que ganham espessura e vida na linguagem literária que vai trazendo em seu peso o objeto estranho a avançar e marcar o universo familiar.

ag11kafka2.JPG (42675 bytes)2. Laços de família

"Sentiu-se novamente incluído no círculo dos homens"
Na segunda parte do livro, a irmã de Gregor vai ser vista se desdobrando - sofridamente e aos poucos - em descobrir como alimentar o inseto, e de como tomar outros cuidados sutis, alguns acertados, outros equivocados em relação à nova vida de Gregor. Gregor agora alimentado durante o sono dos pais, com sua recente aversão a frutas frescas, infantilizado nos cuidados da irmã dedicada, cometendo seus erros e acertos na alimentação em termos de um alentado "gostou" ou desapontado "deixou tudo".

Ela, sempre empenhada em evitar sofrimento para o irmão, termina por vezes causando a pena, como nos barulhos feitos para avisar de sua entrada no quarto, quando Gregor se escondia para livrá-la de sua terrível visão; ou quando a irmã corria para abrir a janela, sufocada com o ambiente do animal.

Descoberta agora em sua utilidade pela família, a irmã é lembrada como um peso morto anterior. E vai crescendo, pela crença mais firme nos seus gestos. O que causa ciúme em Gregor, por exemplo, quando ele reflete que seria melhor que a mãe arrumasse o quarto, pois a irmã "talvez só tivesse assumido uma tarefa tão pesada por leviandade infantil". Isso se choca com a preocupação sincera e devotada da irmã com Gregor desde a metamorfose.

Mas não é só isso. A obra trabalha excepcionalmente bem com as complexas idas e vindas dos laços de família, com suas indissociáveis facetas de amor e ódio, carinho e agressividade. Assim, numa dada passagem a irmã planeja e convence a mãe a ajudar a executar a retirada dos agora inúteis móveis do quarto de Gregor, para lhe dar mais espaço. Gregor resiste silenciosamente torturado à idéia de perder a companhia de seus móveis.

As difíceis, complexas intenções da irmã estão postas numa página onde é difícil detectar quem vê: quem fala é o narrador (que não participa nem participou da história), mas é difícil saber até que ponto sua fala não está contaminada pelas prevenções de Gregor em relação à irmã. Afinal este narrador está quase sempre acoplado à visão do protagonista.

Mas o fato é que em tal página, a narrativa vai desenhando a complexidade da personagem que "movida pela autoconfiança adquirida nos últimos tempos" parece querer deter exclusividade "sobre questões de Gregor" nas discussões de família. E maior exclusividade, sendo a única a entrar no quarto depois da retirada dos móveis, pois "num espaço em que Grete dominasse, inteiramente só as paredes vazias, decerto ninguém, a não ser Grete, jamais se atreveria a penetrar". 

Assim, a especulação (do narrador, de Gregor?) sobre o entusiasmo da irmã em relação à necessidade de esvaziar o quarto vai revelando a rivalidade surda entre os irmãos e também certa passagem de poder, com a queda de um e a ascensão do outro, no trânsito entre a utilidade e a inutilidade no seio da família.

A focalização, na maior porção da narrativa, está limitada ao campo de consciência de Gregor. Porém, em alguns momentos, a aparente neutralidade de uma focalização externa ("visão de fora") traz acentos que mostram uma mistura da dicção de Gregor com o narrador. Dessa maneira, tratando desse episódio da retirada dos móveis, a narração oscila tensamente em justificar os motivos honestos de Grete, a irmã, e em realçar sua leviandade, uma perversa intenção de traçar um aumento de poder sobre o irmão confinado no quarto vazio. Essa marca de tensão amor-ódio seguramente não é do narrador meio alheio à história - e sim de Gregor. Tal dado ficará bem claro noutro trecho. Vejamos. 

"Para Gregor, a intenção de Grete era clara, ela queria pôr a mãe a salvo e depois enxotá-lo parede abaixo. Bem, ela que tentasse! Ele estava assentado em cima da sua imagem e não ia entregá-la. Preferia antes saltar no rosto de Grete." (M, p.54)

Percebe-se que a frase com exclamação traz na carne mesmo da linguagem a invasão do personagem protagonista no discurso do narrador. Trata-se, ao que parece, de um trecho em discurso indireto-livre e que revela a irritação de Gregor, em meio ao aparente distanciamento quase neutro que o narrador apresenta por vezes. E revela também o descontrole de Gregor, sempre pronto a justificar para si mesmo os atos da família e sobretudo a boa-vontade e bondade de sentimentos da irmã. Tal descontrole não é senão a oscilação amor-ódio assinalada pela invisível luta de poder travada no ambiente familiar.

A rivalidade entre os irmãos vira guerra aberta em seguida, quando Gregor se enrosca num quadro, último objeto do quarto, para evitar sua retirada. A visão horrenda "da gigantesca mancha marrom no papel de parede florido" provoca um, digamos, chilique na mãe, quando ela entra no quarto. Nesse instante irrompe violenta gritaria da irmã e a agressividade do pai que vem chegando em casa e se depara com o drama armado. Na seqüência da ação (e que filme daria A Metamorfose na mão de um Orson Welles!), pois bem, na seqüência, que fecha a segunda parte do livro (e a exemplo do fim da primeira parte), Gregor é perseguido morbidamente pelo pai que lhe atira… maçãs! A fruta - original - se lhe crava nas costas (crava mesmo, fica incrustada), num golpe quase mortal. Vinda de seu desmaio, a mãe implora ao pai que poupe a vida do filho, quando Gregor já sente a vista escurecer.

Ainda neste segundo momento da narrativa, em passagem anterior, a mudança na família após a metamorfose é observada de maneira surpreendida e espantada por Gregor. Primeiro, a revelação do pai para o resto da família da existência de economias que Gregor ignorava. Ao menos Gregor achava, e o pai silenciosamente dava a entender, que não restara nada de sua falência comercial. E Gregor passara a trabalhar estafadamente, movido por "um fogo muito especial" no esforço para que sua família esquecesse de maneira mais rápida "a desgraça comercial’ entregando com prazer o que ganhava, recebendo gratidão e reconhecimento - aprovação.

Toda essa narração de como ele trabalha como um louco para dar conforto à família - informação franqueada pelo narrador postado na consciência imediata de Gregor e que lê seus pensamentos -, é dada como uma surpresa que vai desvelando o quanto o filho foi usado e sacrificado pela família. Porém a mágoa que não fica evidente no filho, orgulhoso pelos feitos passados, parece evidenciada ao leitor nos interstícios entre os silêncios e falas do narrador, entre algo tênue e intercambiante entre os pontos de visão e cegueira do narrador e do personagem (3). No conjunto, o que fica é a maneira expressiva com que a obra transmite tais dados, assinalando a maneira como o pai agira para com o filho.

Pela cabeça de Gregor, passa a possibilidade de ter deixado o emprego massacrante mais cedo, caso o pai tivesse usado as economias escondidas para pagar as dívidas dele, que eram aos poucos amortizadas por Gregor. Mas, em sua reflexão, Gregor Samsa não se queixa, e termina achando que era melhor assim, com o dinheiro guardado para a emergência da família.

Gregor fica surpreso também com a extrema vitalidade física demonstrada pelo pai, agora sempre bizarramente fardado 24 horas por dia, com a roupa do emprego arranjado às pressas, meio sempre a postos. O pai que se comportava como um inválido, quando ele, Gregor, sustentava a casa. As recordações de Gregor do trabalho e a postura aflita e esgotada dos membros da família ante o trabalho arranjado depois da mutação é marcadamente negativa. Em A Metamorfose o trabalho da família é antes de tudo uma humilhação.

ag11kafka3.JPG (48171 bytes)3 - Clarear e sombras

"Era ele um animal, já que a música o comovia tanto?"
Na terceira e última parte do livro a ruína da família aumenta. Com um dos aposentos da casa alugados para três inquilinos, Gregor não só representa o horror do elemento estranho no ambiente familiar como é um clandestino a ser escondido. Sua existência é ocultada dos inquilinos, bizarramente (quantas vezes repetiremos essa palavra) tratados como hóspedes de um hotel pelos membros da família, que se comportam dentro de sua própria casa como serviçais. E a visão dessa relação é mais uma coisa a esmagar Gregor.

A solicitação dos hóspedes para que Grete toque algo ao violino, que contraria a ordem inicial da família para que ela silencie para não incomodar os hóspedes, leva a uma das cenas mais comoventes da novela. Os hóspedes logo dão as costas, desinteressados e mesmo incomodados pela música que não lhes agrada mais. "E no entanto a irmã tocava com tanta beleza!" assinala o narrador, traduzindo o pensamento de Gregor, comovido com a música e com lembrança de que anunciaria no Natal o envio de sua irmã para o conservatório, sonho antigo e quase impossível, pelos custos, pela reprovação dos pais.

A comoção de Gregor é tanta que ele se vê "decidido a chegar até a irmã, puxá-la pela saia" e com isso indicar que "ela devia ir ao seu quarto com o violino, pois ninguém aqui apreciava sua música como ele". A entrada de Gregor na sala provoca mais uma dramática passagem da narrativa, envolvendo o protesto dos inquilinos/hóspedes, e a vergonha da família. A ponto de a irmã dar o ultimato para os pais de que é preciso que eles se livrem daquilo, que aquilo não é Gregor.

Gregor retorna resignado ao quarto, ainda com a maçã apodrecendo nas costas inflamadas, até o relógio bater "a terceira hora da manhã" quando "sua cabeça afundou completamente e das suas ventas fluiu fraco o último fôlego", frase que, em língua portuguesa, entre assonâncias e aliterações, iconiza belamente o último suspiro (4)

O anúncio da morte para a família vai ser feito por uma personagem que entra na terceira e última parte da narrativa. Incrível personagem, sórdida e mórbida, a empregada que diariamente exaspera Gregor com suas espiadas e provocações, quando diz, em "palavras que provavelmente considerava amistosas", coisas como "venha um pouco aqui, velho bicho sujo" ou "vejam só o velho bicho sujo".

A maneira que ela avisa não poderia ser mais econômica: "Venham só ver uma coisa, ele empacotou; está lá empacotado de vez!" Isso é dito depois dela cutucar o corpo com uma vassoura. A mesma personagem vai surgir sorridente em sua morbidez, com uma hilária pena de pavão no chapéu (que tanto irritara o chefe), demonstrando orgulho e aguardando que a família a indague sobre como se livrara do corpo, ou melhor, como jogara fora "a coisa aí do lado". A um gesto de impaciência e dispensa da família, a personagem sai de cena de maneira espetacular, reeditando, multiplicado em mil, os modos que tanto exasperavam a família, ela tantas vezes repreendida pelos barulhos que fazia na casa, sobretudo ao fechar portas ("Até logo para todos./ Virou-se selvagemente e deixou o apartamento em meio a um formidável bater de portas").

Eis aí um bom exemplo do quase insuspeitado humor kafkiano que atravessa toda a narrativa de A Metamorfose, e às vezes pode nos passar despercebido, por trás dos tons sombrios de sua letra. 

ag11kafka4.JPG (54833 bytes)4. Quanto ao futuro

"Recordava-se da família com amor e emoção"
O esmagamento de Gregor chega ao limite da consciência da necessidade de sua morte para a continuidade da família. Assim, sua "opinião de que precisava desaparecer era, se possível, ainda mais decidida que a da irmã". Na melancólica, na profundamente triste despedida de Gregor, ele "ainda vivenciou o início do clarear geral do dia lá do lado de fora".

A expulsão do elemento estranho do espaço familiar é posta junto com a normalidade do mundo, a clareza das coisas. Um súbito otimismo vai tomando conta da família, agora envolvida em planos para o futuro. O fim do livro traz tons rosados, com os pais orgulhosos e atentos à sensualidade que transparece na filha, a espreguiçar o corpo jovem, nutrida flor brotada bonita e opulenta, vitaminas em reserva, para o bom marido que viria. 

O tom de final feliz, os rosas e lilases que suavizam o quadro, transbordam um otimismo pequeno-burguês maquiador do que há de desesperada insegurança nessa vida média de contadas e contidas alegrias, desesperada no apego aos limites sufocantes do elemento familiar. No quadro do livro, esta paisagem final escreve, é verdade, esse um tipo de felicidade - mas o que se lê é Kafka.

NOTAS
(1) Trabalhamos aqui com versão para a língua portuguesa da obra de Kafka. Kafka, Franz. A Metamorfose (trad. e posfácio Modesto Carone). São Paulo, Brasiliense, 1996.
(2) Como sugeriu o professor Modesto Carone, em curso ministrado na pós-graduação em Letras da UFPb, primeiro semestre de 1996.
(3)Pontos de cegueira do narrador é expressão de Maria Lúcia Dal Farra. A mesma autora esclarece que a voz original do texto "não é propriamente aquela que se desprende da boca do narrador, mas o acorde das vozes propagadas na ampla abóbada acústica" da narrativa. Cf. Dal Farra, Maria Lúcia. O Narrador Ensimesmado. São Paulo, Ática, 1978.
(4) Na falta de conhecimento do texto original, podemos nos estimular em várias passagens com soluções em língua portuguesa tão extraordinárias como essa melopeica solda entre som e sentido. 


O jornalista Luiz Antonio M. Magalhães é paraibano de João Pessoa, cidade na qual está radicado desde os 5 anos, tendo nascido no Rio de Janeiro, então Estado da Guanabara, finais de 1965. É autor de Uma escuridão em movimento - as relações familiares em Laços de família, de Clarice Lispector (1997). Página ilustrada com desenhos de Roberto Rébora. Contatos com o autor: lulam@openline.com.br.

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