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Luiz Antonio
M. Magalhães
Não era um sonho, atesta o narrador da novela A Metamorfose, no primeiro parágrafo da narrativa (1). Não era um sonho, percebe o protagonista da novela, Gregor Samsa, caixeiro-viajante, ao acordar transformado num inseto, num dia que continuaria sua rotina estafante de arrimo-de-família, numa vida toda voltada para o trabalho, vida cegada para o trabalho. Não é um pesadelo apenas: Gregor acorda mesmo transformado num inseto. No livro, há intensa vivência desse novo estado e desde os primeiros momentos do texto o lento conhecimento do peso, da textura, dos movimentos desse novo corpo vão revelando da maneira mais terrífica um desembotamento dilacerado dos sentidos. Um aprender a olhar as coisas a partir da sensação dessa vivência concreta da matéria de um novo corpo que ameaça uma nova vida e traz à tona o que se perdia na saturação do familiar, violentamente descentrado pela invasão do estranho. O que não deixa de ser feito e visto com forte bizarria, um estranhado bizarro sombrio, que por vezes esconde o humor que há no texto. Mas esse novo modo de ver o corpo, traçado de maneira impressionante em vários pontos da narrativa, tem o efeito de fazer enxergar o que se perdia na rotina da família. O que se lê pelo sentido de ordem anterior perceptível na desordem instaurada pela transformação. E se lê logo sem fôlego ou alívio pelo sonho que não há: a narrativa de certa forma é realista, de um terrível realismo, e o inseto é um inseto, Gregor, o protagonista, está virado inseto desde as primeiras linhas (2). A presença monstruosa do filho Gregor no momento em que cumpre o papel de provedor da casa, foco de todas as aprovações, a partir do próprio pai, é o elemento estranho, infamiliar, a desestruturar a vida média de seu panorama cinzento. Virado em bicho, o personagem se contorce em angústia ante a aflição coletiva da família pelo seu atraso para o trabalho. Angústia que se amplia com a visita do gerente do lugar onde trabalha, que chega para lhe chamar aos deveres, ele, o funcionário exemplar. Mas, apesar de seu estado e de seu despreparo em lidar com o novo corpo, o seu senso de dever comparece. Como assinala o narrador, Gregor "não cogitava minimamente em abandonar sua família". Mais uma vez se eriça o sentido de responsabilidade, lembrança da sobrevida que o Gregor anterior vivencia, na rotina massacrante e sobressaltada a qual se adapta, para saldar dívidas do pai falido. A humilhação da presença invasora e questionadora do gerente se amplia com a reprovação no ar vinda da própria família ou com o desespero justificado da mãe. E com a sua incapacidade de comunicação, que faz com que seu silêncio seja interpretado como uma recusa e sua fala também, o que revelam os comentários que dão conta de que sua voz era imperceptível para os humanos - voz metálica questionada como sendo de deboche - para aumento do desespero de Gregor. O impressionante esforço do personagem para usar o corpo de maneira a virá-lo a ponto de abrir a porta trancada do quarto e apresentar sua justificativa é terrível, nessa ânsia por obter aprovação da família, do chefe. O pânico causado pela presença de Gregor na sala é a um só tempo bizarro e tremendo. A fuga do gerente, o desespero da mãe e da irmã e sobretudo a agressividade do pai tornam o quadro dramático. Quanto mais Gregor Samsa se aproxima implorando compreensão, mais ativa o pânico e desperta o ódio do pai que, "implacável, o pressionava emitindo silvos como um selvagem", brandindo bengala e jornal ameaçadoramente. E aí o pai é o verdadeiro animal, a produzir ruídos bestiais. A primeira parte do livro vai se encerrar com o filho ferido pelo pai e sem conseguir dirigir direito seu corpo de inseto ao quarto para escapar dos golpes, sangrando bastante, deixando "manchas feias" na porta branca, indefeso e fragilizado, com as "perninhas [que] pendiam trêmulas no ar". As manchas de uma substância vertida pelo seu corpo de inseto marcam a porta, seu corpo mal manobrado impede a fuga do chute certo do pai que o atira "sangrando violentamente" para dentro do quarto. A metamorfose - se irrompe logo nas primeiras palavras do texto -, só vai se revelando em sua força aos poucos, pela descoberta de movimentos e pela falta de saber como lidar com tais movimentos, por secreções e dores novas, que ganham espessura e vida na linguagem literária que vai trazendo em seu peso o objeto estranho a avançar e marcar o universo familiar.
"Sentiu-se novamente
incluído no círculo dos homens"
Na segunda parte do livro, a irmã
de Gregor vai ser vista se desdobrando - sofridamente e aos poucos - em
descobrir como alimentar o inseto, e de como tomar outros cuidados sutis,
alguns acertados, outros equivocados em relação à
nova vida de Gregor. Gregor agora alimentado durante o sono dos pais, com
sua recente aversão a frutas frescas, infantilizado nos cuidados
da irmã dedicada, cometendo seus erros e acertos na alimentação
em termos de um alentado "gostou" ou desapontado "deixou tudo".
Ela, sempre empenhada em evitar sofrimento para o irmão, termina por vezes causando a pena, como nos barulhos feitos para avisar de sua entrada no quarto, quando Gregor se escondia para livrá-la de sua terrível visão; ou quando a irmã corria para abrir a janela, sufocada com o ambiente do animal. Descoberta agora em sua utilidade pela família, a irmã é lembrada como um peso morto anterior. E vai crescendo, pela crença mais firme nos seus gestos. O que causa ciúme em Gregor, por exemplo, quando ele reflete que seria melhor que a mãe arrumasse o quarto, pois a irmã "talvez só tivesse assumido uma tarefa tão pesada por leviandade infantil". Isso se choca com a preocupação sincera e devotada da irmã com Gregor desde a metamorfose. Mas não é só isso. A obra trabalha excepcionalmente bem com as complexas idas e vindas dos laços de família, com suas indissociáveis facetas de amor e ódio, carinho e agressividade. Assim, numa dada passagem a irmã planeja e convence a mãe a ajudar a executar a retirada dos agora inúteis móveis do quarto de Gregor, para lhe dar mais espaço. Gregor resiste silenciosamente torturado à idéia de perder a companhia de seus móveis. As difíceis, complexas intenções da irmã estão postas numa página onde é difícil detectar quem vê: quem fala é o narrador (que não participa nem participou da história), mas é difícil saber até que ponto sua fala não está contaminada pelas prevenções de Gregor em relação à irmã. Afinal este narrador está quase sempre acoplado à visão do protagonista. Mas o fato é que em tal página, a narrativa vai desenhando a complexidade da personagem que "movida pela autoconfiança adquirida nos últimos tempos" parece querer deter exclusividade "sobre questões de Gregor" nas discussões de família. E maior exclusividade, sendo a única a entrar no quarto depois da retirada dos móveis, pois "num espaço em que Grete dominasse, inteiramente só as paredes vazias, decerto ninguém, a não ser Grete, jamais se atreveria a penetrar". Assim, a especulação (do narrador, de Gregor?) sobre o entusiasmo da irmã em relação à necessidade de esvaziar o quarto vai revelando a rivalidade surda entre os irmãos e também certa passagem de poder, com a queda de um e a ascensão do outro, no trânsito entre a utilidade e a inutilidade no seio da família. A focalização, na maior porção da narrativa, está limitada ao campo de consciência de Gregor. Porém, em alguns momentos, a aparente neutralidade de uma focalização externa ("visão de fora") traz acentos que mostram uma mistura da dicção de Gregor com o narrador. Dessa maneira, tratando desse episódio da retirada dos móveis, a narração oscila tensamente em justificar os motivos honestos de Grete, a irmã, e em realçar sua leviandade, uma perversa intenção de traçar um aumento de poder sobre o irmão confinado no quarto vazio. Essa marca de tensão amor-ódio seguramente não é do narrador meio alheio à história - e sim de Gregor. Tal dado ficará bem claro noutro trecho. Vejamos. "Para Gregor, a intenção de Grete era clara, ela queria pôr a mãe a salvo e depois enxotá-lo parede abaixo. Bem, ela que tentasse! Ele estava assentado em cima da sua imagem e não ia entregá-la. Preferia antes saltar no rosto de Grete." (M, p.54) Percebe-se que a frase com exclamação traz na carne mesmo da linguagem a invasão do personagem protagonista no discurso do narrador. Trata-se, ao que parece, de um trecho em discurso indireto-livre e que revela a irritação de Gregor, em meio ao aparente distanciamento quase neutro que o narrador apresenta por vezes. E revela também o descontrole de Gregor, sempre pronto a justificar para si mesmo os atos da família e sobretudo a boa-vontade e bondade de sentimentos da irmã. Tal descontrole não é senão a oscilação amor-ódio assinalada pela invisível luta de poder travada no ambiente familiar. A rivalidade entre os irmãos vira guerra aberta em seguida, quando Gregor se enrosca num quadro, último objeto do quarto, para evitar sua retirada. A visão horrenda "da gigantesca mancha marrom no papel de parede florido" provoca um, digamos, chilique na mãe, quando ela entra no quarto. Nesse instante irrompe violenta gritaria da irmã e a agressividade do pai que vem chegando em casa e se depara com o drama armado. Na seqüência da ação (e que filme daria A Metamorfose na mão de um Orson Welles!), pois bem, na seqüência, que fecha a segunda parte do livro (e a exemplo do fim da primeira parte), Gregor é perseguido morbidamente pelo pai que lhe atira… maçãs! A fruta - original - se lhe crava nas costas (crava mesmo, fica incrustada), num golpe quase mortal. Vinda de seu desmaio, a mãe implora ao pai que poupe a vida do filho, quando Gregor já sente a vista escurecer. Ainda neste segundo momento da narrativa, em passagem anterior, a mudança na família após a metamorfose é observada de maneira surpreendida e espantada por Gregor. Primeiro, a revelação do pai para o resto da família da existência de economias que Gregor ignorava. Ao menos Gregor achava, e o pai silenciosamente dava a entender, que não restara nada de sua falência comercial. E Gregor passara a trabalhar estafadamente, movido por "um fogo muito especial" no esforço para que sua família esquecesse de maneira mais rápida "a desgraça comercial’ entregando com prazer o que ganhava, recebendo gratidão e reconhecimento - aprovação. Toda essa narração de como ele trabalha como um louco para dar conforto à família - informação franqueada pelo narrador postado na consciência imediata de Gregor e que lê seus pensamentos -, é dada como uma surpresa que vai desvelando o quanto o filho foi usado e sacrificado pela família. Porém a mágoa que não fica evidente no filho, orgulhoso pelos feitos passados, parece evidenciada ao leitor nos interstícios entre os silêncios e falas do narrador, entre algo tênue e intercambiante entre os pontos de visão e cegueira do narrador e do personagem (3). No conjunto, o que fica é a maneira expressiva com que a obra transmite tais dados, assinalando a maneira como o pai agira para com o filho. Pela cabeça de Gregor, passa a possibilidade de ter deixado o emprego massacrante mais cedo, caso o pai tivesse usado as economias escondidas para pagar as dívidas dele, que eram aos poucos amortizadas por Gregor. Mas, em sua reflexão, Gregor Samsa não se queixa, e termina achando que era melhor assim, com o dinheiro guardado para a emergência da família. Gregor fica surpreso também com a extrema vitalidade física demonstrada pelo pai, agora sempre bizarramente fardado 24 horas por dia, com a roupa do emprego arranjado às pressas, meio sempre a postos. O pai que se comportava como um inválido, quando ele, Gregor, sustentava a casa. As recordações de Gregor do trabalho e a postura aflita e esgotada dos membros da família ante o trabalho arranjado depois da mutação é marcadamente negativa. Em A Metamorfose o trabalho da família é antes de tudo uma humilhação.
"Era ele um animal,
já que a música o comovia tanto?"
Na terceira e última parte do livro
a ruína da família aumenta. Com um dos aposentos da casa
alugados para três inquilinos, Gregor não só representa
o horror do elemento estranho no ambiente familiar como é um clandestino
a ser escondido. Sua existência é ocultada dos inquilinos,
bizarramente (quantas vezes repetiremos essa palavra) tratados como hóspedes
de um hotel pelos membros da família, que se comportam dentro de
sua própria casa como serviçais. E a visão dessa relação
é mais uma coisa a esmagar Gregor.
A solicitação dos hóspedes para que Grete toque algo ao violino, que contraria a ordem inicial da família para que ela silencie para não incomodar os hóspedes, leva a uma das cenas mais comoventes da novela. Os hóspedes logo dão as costas, desinteressados e mesmo incomodados pela música que não lhes agrada mais. "E no entanto a irmã tocava com tanta beleza!" assinala o narrador, traduzindo o pensamento de Gregor, comovido com a música e com lembrança de que anunciaria no Natal o envio de sua irmã para o conservatório, sonho antigo e quase impossível, pelos custos, pela reprovação dos pais. A comoção de Gregor é tanta que ele se vê "decidido a chegar até a irmã, puxá-la pela saia" e com isso indicar que "ela devia ir ao seu quarto com o violino, pois ninguém aqui apreciava sua música como ele". A entrada de Gregor na sala provoca mais uma dramática passagem da narrativa, envolvendo o protesto dos inquilinos/hóspedes, e a vergonha da família. A ponto de a irmã dar o ultimato para os pais de que é preciso que eles se livrem daquilo, que aquilo não é Gregor. Gregor retorna resignado ao quarto, ainda com a maçã apodrecendo nas costas inflamadas, até o relógio bater "a terceira hora da manhã" quando "sua cabeça afundou completamente e das suas ventas fluiu fraco o último fôlego", frase que, em língua portuguesa, entre assonâncias e aliterações, iconiza belamente o último suspiro (4). O anúncio da morte para a família vai ser feito por uma personagem que entra na terceira e última parte da narrativa. Incrível personagem, sórdida e mórbida, a empregada que diariamente exaspera Gregor com suas espiadas e provocações, quando diz, em "palavras que provavelmente considerava amistosas", coisas como "venha um pouco aqui, velho bicho sujo" ou "vejam só o velho bicho sujo". A maneira que ela avisa não poderia ser mais econômica: "Venham só ver uma coisa, ele empacotou; está lá empacotado de vez!" Isso é dito depois dela cutucar o corpo com uma vassoura. A mesma personagem vai surgir sorridente em sua morbidez, com uma hilária pena de pavão no chapéu (que tanto irritara o chefe), demonstrando orgulho e aguardando que a família a indague sobre como se livrara do corpo, ou melhor, como jogara fora "a coisa aí do lado". A um gesto de impaciência e dispensa da família, a personagem sai de cena de maneira espetacular, reeditando, multiplicado em mil, os modos que tanto exasperavam a família, ela tantas vezes repreendida pelos barulhos que fazia na casa, sobretudo ao fechar portas ("Até logo para todos./ Virou-se selvagemente e deixou o apartamento em meio a um formidável bater de portas"). Eis aí um bom exemplo do quase insuspeitado humor kafkiano que atravessa toda a narrativa de A Metamorfose, e às vezes pode nos passar despercebido, por trás dos tons sombrios de sua letra.
"Recordava-se da família
com amor e emoção"
O esmagamento de Gregor chega ao limite
da consciência da necessidade de sua morte para a continuidade da
família. Assim, sua "opinião de que precisava desaparecer
era, se possível, ainda mais decidida que a da irmã". Na
melancólica, na profundamente triste despedida de Gregor, ele "ainda
vivenciou o início do clarear geral do dia lá do lado de
fora".
A expulsão do elemento estranho do espaço familiar é posta junto com a normalidade do mundo, a clareza das coisas. Um súbito otimismo vai tomando conta da família, agora envolvida em planos para o futuro. O fim do livro traz tons rosados, com os pais orgulhosos e atentos à sensualidade que transparece na filha, a espreguiçar o corpo jovem, nutrida flor brotada bonita e opulenta, vitaminas em reserva, para o bom marido que viria. O tom de final feliz, os rosas e lilases que suavizam o quadro, transbordam um otimismo pequeno-burguês maquiador do que há de desesperada insegurança nessa vida média de contadas e contidas alegrias, desesperada no apego aos limites sufocantes do elemento familiar. No quadro do livro, esta paisagem final escreve, é verdade, esse um tipo de felicidade - mas o que se lê é Kafka. NOTAS
O jornalista Luiz Antonio M. Magalhães é paraibano de João Pessoa, cidade na qual está radicado desde os 5 anos, tendo nascido no Rio de Janeiro, então Estado da Guanabara, finais de 1965. É autor de Uma escuridão em movimento - as relações familiares em Laços de família, de Clarice Lispector (1997). Página ilustrada com desenhos de Roberto Rébora. Contatos com o autor: lulam@openline.com.br. |
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