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Viviane de Santana Paulo
Não apenas a fronteira territorial existia naquela região, mas também a fronteira da língua. A necessidade de ultrapassar as fronteiras fizeram com que se tornassem imprescindíveis, mas nós queremos falar das fronteiras/ e as fronteiras ainda traspassam cada palavra:/ nós iremos ultrapassá-las movidos pela saudade da pátria/ e então entraremos em harmonia com todos os lugares. Desde a juventude a autora se opôs aos pensamentos nacionalistas da época, mais tarde tornou-se uma intelectual engajada politicamente, foi contra o armamento nuclear e a guerra no Vietnã. O pai, no entanto, foi integrante de grupos nacional-socialistas e serviu na primeira e na segunda Guerras Mundiais, era uma presença rara junto da família. No final da segunda Guerra Mundial, em 1945, Bachmann era uma mulher jovem e desconhecida, que foi à Viena para estudar filosofia e filologia germânicas. Chegou numa cidade destruída pela guerra, circundada por escombros de edifícios bombardeados, pessoas passando frio e fome. Felizmente, a universidade e as mais importantes bibliotecas não tinham sido devastadas, o que contribuiu para que muitos intelectuais regressassem à Viena. Muitos deles se encontravam no famoso bar Raimund, de Hans Weigel, onde passavam a noite discutindo fervorosamente sobre política e literatura. Weigel foi escritor e cabaretista que muito colaborou para a literatura pós-guerra. Os intelectuais nesta época lutavam contra o conflito exógeno nascido do sentimento de culpa por pertencer a um país que contribuiu para a maior catástrofe na história da humanidade e a negação desta culpa, a angústia perante um sentimento cada vez mais arraigado, a debilidade diante do passado assombroso. Este passado assombroso é, nas obras de Bachmann, representado pela figura do pai. Como na obra expressionista de Kafka, onde em Carta ao Pai o conflito entre pai e filho foi acentuado, aqui o conflito é entre pai e filha, retratado, por exemplo, num trecho do romance Malina, no capítulo em que a autora descreve um sonho, onde pai e filha estão presos na maior câmara de gás (Gaskammertraum). O início deste capítulo é a cena precursora da literatura após 1945: uma criança da geração dos culpados, Tätergeneration, procura a fuga do mundo do holocausto e é abandonada pelo pai. No apartamento do pintor surrealista Edgar Jené, em 1948, Ingeborg Bachmann conhece o poeta Paul Celan, com quem mais tarde manteve uma extensa e valiosa correspondência. 86 cartas da escritora dedicadas a Celan estão trancadas no arquivo literário alemão de Marbach, as de Celan estão lacradas no arquivo da biblioteca de Viena. Paul Celan teve seus pais assassinados no campo de concentração, ele próprio sobreviveu aos tratamentos desumanos num campo de trabalho. Muitas das poesias de Paul Celan foram direcionadas a Ingeborg Bachmann. Ela o segue até Paris, para tentarem uma vida juntos, amava-o mais do que minha vida, mas por razões diabólicas (…), foram as suas palavras numa carta ao amigo Hans Weigel. Eles se separam. Contudo, o encontro com Celan serviu para transformar profundamente os pensamentos e a linguagem da poeta, onde o acontecimento histórico relacionado ao extermínio dos judeus adquire a efusiva em suas obras. Der dunkle Schatten,/ dem ich schon seit Anfang folge,/ führte mich in tiefe Wintereinsamkeiten (A escura sombra/ que persigo desde o início/ me conduz a uma profunda solidão de inverno), a escura sombra que antes representava a solidão do eu-lírico condenado a viver subjugado pela arte, como na poesia Medo (Ängste), onde a iníqua lei da arte, igualada à lei dos homens no que diz respeito à criação literária, exaure o sangue da vida. Neste período artístico a exigência de escrever era encarada como uma tortura e obsessão. A escura sombra passou a ser a sombra da guerra, da destruição. Sob a influência de Celan, der dunkle Schatten transformou-se na escura sombra em cima dos escombros da guerra, o tema tradicional do poeta exilado pela arte é agora a imagem do exílio do poeta após o holocausto. Bachmann defendeu sua tese sobre a filosofia existencial de Martin Heidegger, mas recusou-se a escrever uma poesia dedicatória aos setenta anos do filósofo, assim como seu amigo Paul Celan, como nolição ao pensamento irracional alemão: Heidegger era simpatizante com idéias nacionalistas. No início dos anos cinqüenta a escritora voltou-se para os pensamentos de Wittgenstein, nesta época a poeta, ensaísta e filósofa era conhecida no meio literário, possuía seus textos publicados nas revistas mais significativas da Áustria. Escreveu um ensaio sobre a filosofia de Wittgenstein que foi publicado no Caderno de Frankfurt 1953, um ensaio sobre o romance de Robert Musil, O Homem sem Virtude (Der Mann ohne Eigenschaft) na revista Akzente (1954) e outros. Foi um dos primeiros intelectuais a reconhecer o valor da filosofia de Wittgenstein. Mas o verdadeiro sucesso obteve com o Grupo 47, de onde eram integrantes a também poeta austríaca Ilse Aichinger e Paul Celan. Em 1953 foi publicado seu primeiro livro de poesias, O Tempo Prorrogado (Die gestundete Zeit), que tornou-a famosa de um dia para o outro. A maestria de fundir fatos históricos com experiências empíricas resultou na tônica de suas poesias, unir a condição social e histórica atual à tradição literária. Os motivos e a linguagem adotados pela poeta lembra Bertold Brecht no que se refere ao ir embora, a não se fixar em nenhum lugar, a não se prender a nada. Contribuiu para o grande sucesso de O Tempo Prorrogado o fato de ser uma lírica que podia ser interpretada não apenas através de um prisma político, mas também do ponto de vista filosófico. Há uma alusão à passagem de Heidegger, O Tempo Contado (Die gezählte Zeit) e ao texto de Aristóteles, Ser e Tempo (Sein und Zeit). Só mais tarde é que a crítica iria se deparar com o elemento você (Du): pela primeira vez na história da lírica um poeta se dirige diretamente a um você para desafiar a posição masculina desprovida de respeito contra a mulher em desvantagem. Não é sem fundamento que Bachmann, consciente ou inconscientemente, preferia se expressar através de personagens masculinos. Segundo Christa Wolf escreveu sobre Ingeborg Bachmann: toda mulher deste século que ousou circular no nosso meio cultural dominado pelos homens - a literatura, a estética - conheceu o desejo de autodestruição.
Outros gêneros literários fazem parte da gama artística de Ingeborg Bachmann, além de poemas, contos, ensaios e romances, produziu novelas para programas de rádio e também um livreto para a ópera de Hans Werner Henzel, O Príncipe de Homburg (Der Prinz von Homburg, 1960). As mais conhecidas novelas para rádio são Uma Loja de Sonhos (Eine Geschäfte mit Träume, 1952) e As Cigarras (Die Zikaden, 1955): pois as cigarras foram um dia pessoas, que pararam de comer, de beber e de amar, para continuarem cantando sempre. Na fuga à música foram se tornando magras e pequenas e agora elas cantam perdidas de saudades, encantadas, mas também amaldiçoadas, porque sua voz não é mais humana. A complexidade na obra de Bachmann concentra-se na tríade eu-lírico, arte e história. A arte é um istmo que promove a união à exigência da criação literária e à interpretação da história - para a nolição a qualquer método incruento de morte, a qualquer pensamento bélico diante da raça humana. Como resposta a uma pergunta, numa entrevista para um programa de rádio polonês, Bachmann define como principal compromisso do escritor descrever suas experiências o melhor possível e aliciar o leitor a sentir, pensar e sofrer exatamente como o escritor o fez. Esta escritora, pertencente à literatura após 1945, como Paul Celan, Ilse Aichinger e a poeta russa Ana Achmatowa, a quem conheceu pessoalmente em Roma, entre outros, não nega o passado assombroso, mas é de uma forma singular que ela o interpreta em suas obras, acentuando a concatenação de sua dor, sua doença com o enfermo de toda uma geração. Não é o passado que Ingeborg Bachmann combate, mas um futuro ágrafo, um futuro que sirva apenas para encobrir os crimes do passado, um futuro mudo que permita que estes crimes incomparáveis caiam para sempre no esquecimento. E além disso, seu esforço literário consistiu também na expressão estética infensa aos diferentes métodos de morte que não são considerados ilícitos na sociedade. Na madrugada de 26 de setembro de 1973 Ingeborg Bachmann sofre um acidente, cujas queimaduras graves levam-na ao falecimento semanas depois no hospital, no dia 17 de outubro. Seus amigos surpreenderam-se com a gravidade das queimaduras, uma vez que a escritora tinha apenas desmaiado no banheiro com o cigarro aceso e, mesmo inconsciente, teria voltado a si em pouco tempo movida pelas dores da chama ardendo na pele. No entanto, Bachmann não despertou a tempo, estava alcoolizada e sob efeito de calmantes. Foi enterrada em Klagenfurt, perto de Obervellach, onde um campo, um rio e um lago compõem a paisagem. Dois poemas de Ingeborg Bachmann Herbstmanöver Ich sage nicht: das war gestern. Mit
wertlosem
In den Zeitungen lese ich viel von
der Kälte
Laßt uns eine Reise machen! Laßt
uns unter Zypressen
Manobra Outonal Eu não digo: foi ontem. Com
dinheiro de verão
No jornal leio muito sobre o frio
Vamos fazer uma viagem! Vamos ver debaixo
dos ciprestes
Salz und Brot Nun schickt der Wind die Schienen voraus,
In die Hand meines ältesten Freunds
leg ich
Du, im fieberweißen Ornat,
Wir wissen,
Schläft doch im Felsen
Von den großen Gewittern des
Lichts
So nehm ich vom Salz,
Wir teilen ein Brot mit dem Regen,
Sal e Pão Então o vento manda os trilhos
na frente,
Na mão do meu amigo mais antigo
coloco
Você, com a batina branco-febril,
Sabemos,
Dorme então nos rochedos
Da grande tempestade de luzes
Assim pego do sal,
Dividimos um pão com a chuva,
A ensaísta e tradutora Viviane Santa de Paulo (São Paulo, 1966) reside na Alemanha, ali trabalhando na Embaixada do Brasil. Poeta inédita em livro, em 1998 fundou a União dos Escritores Brasileiros residentes na Alemanha (UEBRA). Página ilustrada por desenhos de Roberto Rébora (México)..Contatos com a autora: vsantana@brasemberlim.de. |
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