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Os editores
FM - Willer, quando te convidei para a editoria da revista, o que exatamente esperavas disto? Ou seja, como dimensionavas então a circulação apenas virtual de uma revista de cultura? CW - Já naquela altura dos acontecimentos, no mínimo como um complemento indispensável à publicação de textos sobre papel, em livro ou periódicos impressos. Alertou-me para isso a quantidade de mensagens em função de, por exemplo, meu endereço eletrônico figurar no Jornal de Poesia. Talvez venha a ser mais que isso, um complemento, à medida que ampliar-se o número de usuários da Net, e que, passada a atual crise econômica do setor, surjam meios de extrair retorno financeiro da iniciativa. Para mim, Net é algo em início de implantação. Por isso, estamos apenas começando. Facilidade de acesso à informação e a possibilidade de armazená-la, tornando-a não-descartável, pesam decisivamente a favor do meio eletrônico. Na verdade você demorou para conectar-se à rede, só o fez no final de 99. Mas, a partir daí, mergulhou de cabeça, passando a dedicar-se a um projeto complexo como o de Agulha. Já previa esse tipo de envolvimento, antevia o alcance que Agulha poderia ter?
CW - Complexo pelo que tinha de novo, de diferente de qualquer outra coisa, inclusive dos demais portais literários da Net. Até da dificuldade intrínseca de editar, organizar isso no meio eletrônico. Editar sempre é difícil, em qualquer meio, e cada modalidade, impressa ou eletrônica, tem suas facilidades e suas dificuldades próprias. Enfim, partíamos do zero. Evidentemente, o resultado dependeria fundamentalmente do que você tivesse de matérias e colaboradores em potencial, ou já disponíveis. Diga-me, a propósito, você antevia que, passado o reaproveitamento do rescaldo de Xilo, que ajudou a iniciar Agulha (tanto é que a minha primeira colaboração em Agulha foi mesmo reaproveitamento de material para Xilo), iria dispor de tantos colaboradores e matérias de interesse? FM - De fato, colaboradores como Carlos Nejar, Gracco Sílvio, Sânzio de Azevedo, dentre outros, inicialmente contatados para publicação em Xilo, foram aproveitados nos primeiros números de Agulha. Como uma revista surgiu em função da impossibilidade da outra, a presença crescente de novos colaboradores seria o caminho pensado como natural. O que vale observar é que havia um grande preconceito, por parte de alguns colaboradores, em função de Agulha circular apenas virtualmente. Houve casos de matérias acertadas para a Xilo que tiveram de ser devolvidas, por rejeição ao meio eletrônico. Aliás, não achas interessante que ainda hoje essas duas mídias (eletrônica e impressa) mal convivam entre si? A grande parte das revistas que lidam especificamente com um desses meios não toma em conta a existência do outro. Qual te parece ser a razão dessa ausência de diálogo? CW - Miopia jornalística, em primeiro lugar. Obviamente. Eu examinar um suplemento literário - alguns, no caso, já que estou respondendo em um fim de semana, quando essas coisas saem - e não ver - aposto que não vou ver! - nem uma, sequer uma nota sobre algo literário que tenha saído na Net, isso apenas denota o costumeiro e previsível burocratismo da imprensa. A recíproca não é verdadeira, pois o meio eletrônico, de vários modos, expande a circulação do que sai impresso. Enfim - coloca-se à disposição na rede o que sai impresso, mas a recíproca, imprimir o que sai na rede, quem faz isso é o leitor. Observei, já, que vários leitores de Agulha imprimem nossas matérias para aí, então, lê-las com calma. Até onde isso vai? Aqui, retomo algo que venho dizendo: que Net nem começou. Com equipamentos melhores e mais baratos e, principalmente, melhores conexões, aí sim, o jogo muda, o quadro vai ser outro. De qualquer modo, algo que já existe e irá expandir-se é a publicação eletrônica, com a opção, se o leitor pagar, do print on demand, em vernáculo, impresso sob encomenda. Agora, praticando uma inflexão em nossa conversa, você diria que Agulha tem uma propensão surrealista, algo assim?
FM - Estou completamente de acordo. Assim como é inevitável falar de Surrealismo quando tratamos da grande poesia grega deste mesmo século, como aliás veremos a partir de ensaio sobre Kaváfis que será publicado em Agulha # 10. Não poderemos jamais fugir, sob pena de preconceito e desonestidade, de sua preponderante influência sobre a criação e o pensamento em nosso tempo. Agora, as taxas brasileiras, francamente… Se pensarmos que a tiragem média de livros de poesia no Brasil é exatamente a mesma de Porto Rico, país cuja população eqüivale a 2% da brasileira, então veremos explicação para tanta leitura desfocada acerca de inúmeros assuntos. Mesmo escritores europeus da importância de um Robert Graves, Peter Poulsen, Marcel Schwob, José Ángel Valente ou Boris Vian - para citar apenas alguns que estão comentados nas páginas de Agulha -, são praticamente desconhecidos no Brasil, país onde seguem imperando o preconceito e a inconseqüência. CW - Acho
que tocamos em alguns pontos importantes. Retomaremos, quando houver ocasião.
Faltou informarmos mais sobre repercussão de Agulha, evidenciada
pela quantidade de retransmissões através de outros portais
e de manifestações de leitores, por eMail ou pessoalmente,
às vezes até nos surpreendendo. Mas isso também, é
algo que está no começo. Vai ampliar-se, é claro,
com mais inscrições de nossas matérias nos sites
de busca. Por isso, voltaremos, com certeza, ao assunto.
Diálogo realizado em março de 2001. Página ilustrada com têmperas de Roberto Rébora (México). |
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