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Recentemente, um de nossos suplementos culturais trouxe, como tema de capa, a Internet. Como texto principal dessa pauta, páginas e páginas de argumentação sobre uma nova estética que se desenvolveria a partir dos games, os jogos eletrônicos. Estes ofereceriam uma contribuição análoga àquela trazida, décadas atrás, por histórias em quadrinhos, cujo traçado, ou "linguagem", via arte pop, penetrou na produção culta e se tornou repertório elevado. O mesmo desvio de ênfase, ou de foco, é partilhado por críticos dos efeitos da Internet. Apocalípticos, traçam um quadro onde infinitos adolescentes estariam se entretendo, suas caras enfiada em monitores por horas e horas a fio, com os mesmos games. Ou, pior ainda (na opinião deles), com a escala completa dos modos de satisfação do voieurismo disponíveis através da navegação. Mas nada disso é específico. Não corresponde a algo novo, trazido pela rede eletrônica, próprio dela, diferenciando-a de outras tecnologias. Jogos eletrônicos são os mesmos que, antes, estavam nas engenhocas de fliperama, ícones da "cultura jovem" dos anos 80 que desaparecem de vista sem deixar saudades. E que, logo a seguir, foram oferecidos em vídeos operados através dos televisores e, por um breve interregno, em CDs. A net não produziu uma nova população de aficionados de jogos eletrônicos; apenas acolheu aqueles que, se ela inexistisse, estariam acionando comandos de outros suportes. O mesmo vale para o polimorfo mundo do erótico, pornô e obsceno. A diversidade de imagens de corpos, solitários ou em interação, é a mesma antes oferecida em vídeos, cinemas, revistas e estabelecimentos especializados. Também nesse caso, não houve criação de novos públicos, porém migração dos que, não estando em um lugar, estariam em outro. Saber o que diferencia a Internet dos demais suportes e tecnologias da comunicação ajuda a entender algo cuja expansão mal se inicia. Com maior facilidade de acesso através de cabos, computadores mais baratos, terminais públicos com acesso grátis, entre outras novidades anunciadas, então sim, entraremos na sociedade da informação. A primeira característica a observar é que, desde a segunda metade do século XIX, quando foi inventado o telefone, não havia surgido outra tecnologia de informação tão interativa, permitindo que o receptor de mensagens fosse, na mesma medida, seu emissor. Rádio e TV são unidirecionais, suas mensagens trafegam em vias de mão única, do emissor para os usuários. A interação ultimamente propalada por emissoras de TV e outros veículos é uma fraude, pois são elas, as emissoras, que formulam as perguntas, definem regras do jogo, tomam conhecimento das mensagens que lhes interessam. E, toda vez que Internet e TV se cruzam, com a transmissão de programas pela rede ou com e-mails para as emissoras, é a TV que volta a prevalecer sobre a rede; uma tecnologia, a net, é reduzida, enquandrada na precedente. Argumentarão alguns que portais de acesso também obedecem a essa regra. Seus cardápios são colossais, mas a preparação é feita no modo centralizado. No entanto, a centralização é contrabalançada, ao menos em parte, pela facilidade crescente, para o usuário, de instalar seus próprios portais, os sites e pages individuais, por sua vez agregados a portais de acesso e outros serviços. Além disso, é através deles que se estabelece uma interação adicional, múltipla, e não apenas dois-a-dois, entre pares de interlocutores, com os chats e grupos de trocas de mensagem. A característica mais decisiva da rede, contudo, é ela ser, em primeiro lugar, um veículo para a palavra escrita, deslocada, ao longo dos últimos 150 anos, por outras tecnologias. Inicialmente pelo telefone, que possibilitou o ingresso da fala na telecomunicação; a seguir pelo rádio, privilegiando a mensagem sonora, assim como os gramofones; e pelo cinema, TV e vídeo, veículos de imagens em movimento. É claro que um computador moderno, ligado à rede, transmite de tudo: palavras, imagens e sons; livros, música e filmes; até mesmo aplicativos anexados às mensagens. Imaginemos, contudo, um e-mail falado, em vez de escrito. Pois bem: o máximo do desempenho assim obtido corresponderia a um aparelho moderno de telefonia, rebaixando o computador para o nível de uma tecnologia anterior. Modos de interação grupal, ou coletiva, são possíveis unicamente através do texto: o chat falado, e não escrito, seria uma completa algaravia. Quanto à celeuma em torno do download, a troca de gravações através de programas como o Napster, ocorre, nem tanto por ser a característica mais importante da net, mas sim, por ser aquela que vai ferir mais interesses comerciais, interferindo em altos negócios. Talvez passe à conta dos mitos do século XX a idéia, sustentada de diferentes modos por McLuhan, pela poesia concreta e por tantos outros, de que a comunicação eletrônica, digital, não discursiva, simultânea, acarretaria modificações substanciais no signo. Justificam interesse, é evidente, as obras de qualidade, acessíveis pela rede, integrando linguagens, realizando idéias como a do verbivocovisual e afins. No entanto, mensagens continuam a chegar na escrita alfabética, linear, que acabou por entender-se perfeitamente com a tecnologia digital. Inclusive os conteúdos da ordem do poético, não linear. Talvez isso ocorra porque, na escola, nos ensinaram mais escrita do que artes visuais; e, correlatamente, porque o uso de um processador de texto é mais adequado a nossas competências do que um programa de computação gráfica. Se estivesse correta a hipótese do crescimento do modo ideográfico, às custas do alfabético, estaríamos todos migrando para o Oriente, e não o contrário, as culturas da escrita ideográfica a adotarem, cada vez mais, modos ocidentais. A expansão da escrita, que agora deverá dará outro salto através do meio eletrônico, correspondeu a grandes momentos da civilização ocidental. Um deles, o Humanismo renascentista, relacionado à invenção da imprensa. Outro, esse par de opostos complementares, Iluminismo e Romantismo, contemporâneos da formação de um mercado de livros. Trabalhos como este aqui empreendido, de apresentação do escrito, porém ainda pouco conhecido, insuficientemente lido, sempre na boa companhia do visual de qualidade, acrescentam algo à positividade instaurada pelo Humanismo, Iluminismo e Romantismo. Os editores
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1
a casa da flor (ensaio). fernando
freitas fuão. brasil.
2 a poética crepuscular de kavafis (ensaio). víctor sosa. méxico. 3 alberto murillo: el artista es un mago (ensaio). rafael ángel herra. costa rica. 4 fernando ainsa: cantata pelo fim de um mundo (resenha). alfredo fressia. uruguai. 5 notas sobre el ocultismo en la poesia hispanoamericana moderna (ensaio). josé luis vega. porto rico. 6 a permanência da anarquia: a propósito de uma antologia do surrealismo português (ensaio). claudio willer. brasil. 7 sânzio de azevedo: simbolismo e outras esferas (entrevista). floriano martins. brasil. 8 sobre a santa nudez (ensaio). contador borges. brasil. 9 três perguntas a josé homero (depoimento e poemas). méxico. 10 vitor ramil: o calor da estética do frio (entrevista e resenha). luiz horácio rodrigues. brasil. |
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