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revista de cultura # 10 |
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fortaleza, são paulo - março de 2001 |
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SOBRE A SANTA NUDEZ Contador Borges Para Anelito de Oliveira
E os santos? A santidade é nua em essência. Santo Agostinho temia a carne das palavras mas amava seu clarão. O problema era a volúpia em seus olhos: o corpo quer o lugar do espírito no reino dos sentidos. Agostinho provou das brasas da carne e suas aflições. Freqüentou sarjetas e dormiu à sombra dos bordéis antes de aventurar-se pelos meandros da fé. São Francisco odiava as vaidades de vestuário. Por que não ser como os pássaros e as flores? A nudez é livre como o ar. Talvez o desnudamento tenha se tornado erótico a partir do momento em que o homem percebeu a oscilação simbólica entre natureza e artifício. O indivíduo deve ter tomado um choque ao sentir-se arrebatado pelas forças obscuras de si mesmo. Sua cobra em riste e, na falta dela, a gruta úmida e aconchegante, oferecendo pouso, eram signos por demais ostensivos para não desviar a atenção das pobres criaturas do trabalho. O homem então cobriu-se com a pele dos animais: a roupa feita do despojo alheio, este suplemento, a morte "prêt à porter". Com isso o ato de despir passou a dar ênfase ao corpo e a valorizá-lo (por temê-lo) oculto sob as vestes. O homem das cavernas, em algum momento, viu-se enrolado como um Laocoonte em serpentes ensandecidas. A forma desta besta sinuosa não é no imaginário universal um dos emblemas mais antigos da volúpia? Daí, volta e meia, os motivos "pele-de-cobra" serem evocados pela indústria da moda ou reeditados de suas sobras pelo kitsch em meio às cinzas deste Fênix incorrigível chamado capital. Estampam adereços e peças de roupa, só deixando o circuito para retornarem em outra temporada com guizos ainda mais vibrantes. Há muito tempo a roupa tornou-se signo do próprio homem, não precisando dele para designá-lo. Os homens se despem para o bem e para o mal, inocente ou maliciosamente, apaixonados ou resignados. Mas e os santos, qual a sua relação com a roupa? O que ocorre no santo desnudar-se não é o despir "para baixo" (em direção aos genitais) do strip-tease, mas "para cima", no sentido anagógico do termo: elevação. Assim, a Santa Escritura eleva o espírito aos objetos celestes e divinos da vida eterna que os santos gozam no céu. Despir-se é rasgar aos olhos de Deus um véu inexistente. Não é o corpo que se despe, mas seus atos: o sujeito se humilha para expiar-se de seu lado bestial. Nada se revela porque nada se esconde: pele é véu e véu é pele. Não foi lambendo o sexo que os homens se santificaram, mas feridas, as seculares flores do sofrimento humano. São João da Cruz dá testemunho disso, assim como Flaubert em São Juliano, o hospitaleiro. As práticas ascetas viram o erotismo de cabeça para baixo. "Estou na lareira do meu corpo", dizem os libertinos de Sade. Os santos não, se voltam para o outro. Amar ao próximo é no fundo morrer melhor de si mesmo. O corpo nu da santidade é um corpo sem Eros. Sobre ele reluzem os frisos da Ética, sua moldura e auréola. Amar o outro em excesso leva o santo ao delírio. Nesse ponto, o corpo é um estorvo. E já que seu corpo o impede de chegar a Deus, ele deve ser castigado, abolido. A negação de si mesmo torna o outro a escada ideal para o encontro celeste com formas mais grandiosas. É um salto do espírito por sobre os peçonhentos pélagos humanos, suas surpreendentes e incômodas "partes baixas".
Os libertinos almejam um gozo imenso que a imaginação promete, gozo infinito, mas impossível de se conceber sem a idéia de Deus. É condenando o divino, execrando suas ações e negando sua existência que Sade vai buscar na natureza humana uma compensação extrema. Há, pois, que hiperbolizar algo já grandioso em si mesmo: o orgasmo. Este depende do martírio do próximo. Tal gozo se multiplica na subtração do outro. Nas igrejas, os cantos do medievo suprimem todos os instrumentos. Agostinho, Ambrósio e Gregório preferiam as cordas vocais. Só o aparelho humano (e não seus artefatos sonoros) é digno de devoção ao criador. O canto em uníssono neutralizava os enlevos do corpo. Os homens tornavam-se um gigantesco fole de fé ressonante. Quanto aos desvios corporais, havia que se precaver contra a imaginação. Tomás de Aquino alerta contra este perigo denominado delectatio morosa, quando a alma se dirige voluntariamente às imagens proibidas retardando-se na sua contemplação. Na Idade Média os pintores relegaram o erotismo ao inferno. Mas, como se sabe, em se tratando do olhar e sua relação com as imagens, a sensualidade espontânea, feliz ou sinistra, brota onde menos se espera. * No Batismo de Cristo, de Verrocchio, o filho de Deus encontra-se em trajes de banho, toalha listrada à cintura tipo "tomara-que-caia". Caminha em um riacho entre as pedras, os tornozelos beijados pela água. Nenhum erotismo se insinua. Em Cristo e os pecadores penitentes, de Rubens, uma prostituta inclina-se envergonhada diante de Jesus, disfarçando os seios com as mãos. O pintor ilumina seus movimentos realçando a figura em contornos dourados, na mesma cor dos cabelos. A mulher quer redimir a carne. Jesus representa a nudez triunfante, o peito escudando as setas íntimas dos desejos espúrios. Morales mostra Jesus menino manuseando o seio esquerdo da Virgem, mas sem qualquer malícia. No casaco, ligeiramente entreaberto, reluz uma nesga do seio divino que dará de beber ao pequeno Deus esguichando-lhe na boca gotas peroladas do leite magnífico.
E os maneiristas? Não distorciam em analogia aos volteios da chama? Não prendiam o ar (o sagrado) da pintura com espirais de fé, sinuosíssimas? Anamorfose caprichosa: ótica do espírito, atalho para Deus. Há um halo de erotismo na Madonna del collo lungo. Mas trata-se de um Parmigianino, um apaixonado pelo estilo e mestre da distorção. O braço da santa acolhe o infante que nele gira, o rosto e seu sentido mergulhando serenos na inocência protetora do sono. As coxas ínfimas do menino, entreabertas, exibem um minúsculo pênis, tão inofensivo quanto santo. Dir-se-ia que o pintor apenas roçou na tela o pincel visando leveza. Pensou na perfeição dos detalhes, mas esqueceu de completar o contorno, deixando o sexo indefinido: uma interrogação rosada entre as pernas. Por fervor, a arte religiosa maneirista retorcia os corpos em forma de chama (furia della figura), para assim expandirem em direção a Deus. Tal procedimento também é conhecido como serpentinata, por lembrar uma cobra viva em movimento, mas em convulsão benigna, sem qualquer alusão ao sexo demoníaco. O Cristo morto com anjos, de Rosso, participa deste paradigma. Suas longas, luminosas e bem torneadas coxas formam uma chama milagrosamente forte, imponente. O cristo está nu, a zona pubiana ligeiramente à vista, mas o pênis guardado na sombra. De novo, um erotismo sombrio, contrastando com a exuberância do corpo iluminado, poderoso e viril, apesar de morto. Em suma: a nudez mais santa é a mesma da chama ou serpente que estremece no ar em fúria e golpeia a carne como um chicote. Contador Borges (São Paulo, 1954). Poeta, tradutor e ensaísta. Traduziu Sade, Ciranda dos Libertinos (Max Limonad, 1988), A Filosofia na Alcova (Iluminuras, 1999), Nerval, Aurélia (Iluminuras, 1991), e René Char, O nu perdido e outros poemas (Iluminuras, 1995). Publicou Angelolatria (Iluminuras, 1997). Contato: contador@unisys.com.br. O crédito da fotografia é de Beto Borges. Ilustrações de página de Alberto Murillo (Costa Rica, 1960). |
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