PARA JIMI HENDRIX,
PARA MIM E TODOS VOCÊS
sua música soando em minha (sua)
cabeça
música suando (o concreto na neblina desmaiando)
fragmento ser (fragmento galáxia)
vertigem na sensação dos ossos
placas de silêncio no labirinto deserto
sua palavra
onde?
impedido de voar
agora é a abstração da ave sem olhos
sem radar
imagem - vácuo
sob morta (in)consciência
seu universo
onde?
mugir lâmpadas de meia-noite
oh radical lua da ausência
louco louco sim
linguagens todas inúteis
na pele inútil do tempo
sua energia
onde?
erráticas garras guitarras
vomitando
vomitando fetos
TEXTO
O texto, escura escama, pesadelo de
eternidade,
máscara densa do universo vomitando.
O texto, mas não a energia que o pensou,
interrogando a simultaneidade absoluta.
Há uma esperança nas ruas, nas pedras, no acaso
de tudo, uma esperança, uma forma suspensa
entre o aparente e a essência, entre o que vemos
e a substância, uma esperança, uma certeza talvez
de que o rio não se dissolva no mar, de que
o ínfimo, o precário, a voz, a sombra,
o estalar das carnes na explosão
não se dispersem no todo, impensável medusa da inexistência.
Há uma luz qualquer sonhando integração, o suposto
destino dos ventos, das energias globais, a suposta
sabedoria com que o homem fecundou a crosta
envenenada do planeta, há uma luz qualquer
ensaiando águas pensadas no eterno esvair-se,
abstrato expansionário, há uns olhos além
da frágil realidade, da terrível matança, da
cruel carnificina entre seres pestilentos aquém
da fronteira do sonho, um texto além do texto,
uma esperança talvez, enquanto somos e nos cumprimos,
enquanto somos e nos oxidamos, enquanto
somos e prosseguimos.
ASSIM
Vomitaram trinta estrelas nesse charco
de líquidos corpos empoçados.
Nas tocas iluminadas os que se iniciam na morte
fantasmas de si mesmos
fecundam ritmos e bússolas e fracassos.
Há desgosto e música na atmosfera branca
negra.
Vomitaram trinta estrelas talvez mais
mas o buraco se fecha.
Em silêncio algumas flores resistem
nas verdes gramas do sol.
DOS OLHOS DO NÃO
se lhes derem Kennedy ou Kruschev ou
De Gaulle
não acreditem nesta única realidade
neste implacável colar de conchas de ar
se lhes derem os códigos os gestos as modas
não acreditem nesta enlatada realidade
nesta implacável aranha de invisíveis fios
se lhes derem a esperança o progresso a palavra
não acreditem na imposta realidade
na implacável engrenagem das hélices de vácuo
aprendam a olhar atrás do espelho
onde a história jamais penetra
a profunda história do não registrado
aprendam a procurar debaixo da pedra
a estória do sangue evaporado
a estória do anônimo desastre
aprendam a perguntar
por quem construiu a cidade
por quem cunhou o dinheiro
por quem mastigou a pólvora do canhão
para que as sílabas das leis fossem cuspidas
sobre as cabeças desses condenados ao silêncio
A LORCA
a romã da morte madura
no vácuo de estrela e água
a romã da morte amargura
no prado da madrugada
granada
fonte de espinhos
granada
profano vinho
romã da morte madura
na prata da madrugada
(no azar de sombra e caveira
algemas de fogo e nada)
granada
carrasco na arena gelada
cães mastigando o assombro
em estilhaços na estrada
granada
estrelas de sangue e de neve
horizontes descarnados
sol sem luz
torta manhã
nos olhos
(seca romã)
de federico parado
de federico dormido
de federico cuspido
de federico e seu nada
granada
lados feridos
granada
assassina estrada
de cães de lua e labirinto
corpos lançados nos rios
corpos salgados nos frios
fascista florada e martírio
granada
nenhuma estrada
(pois além de federico
a poesia e a morte
bailam máscaras e acasos
no despenhadeiro de traços
e verbos de federico
a infinita manhã
naquele instante esgotado)
granada
terrível romã
madurando a madrugada
UMA NOITE
o tio cuspia pardais de cinco em cinco
minutos.
esta grama de lágrimas forrando a alma inteira
(conforme se diz da jaula de nervos)
recebe os macios passos de toda a família
na casa evaporada
mais os vazios passos
de ela própria menina.
a avó puxava linhas de cor de dentro dos olhos.
uma gritaria de primos e bruxas escalava o vento
escalpelava a tempestade
pedaços de romã podre
no bolor e charco do tanque.
o pai conduzia a festa
como um barqueiro
puxando peixes mortos.
nós
os irmãos
jogávamos no fogo
dentaduras pétalas tranças
fotografias cuspes aniversários
e sempre
uma canção
só cal e ossos
a mãe de nuvem parindo orquídeas no cimento.