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Ana Cristina Souto
Coroa de Flores
Fitei de longe ameaças bombásticas
Então rasguei todos os versos que te fiz
Vestígios do meu sadismo caprichoso
E vesti de flores meu corpo libertário
Não senti angústia ao ver a morte te levando
Toquei até as tuas mãos frias e rígidas
Olhei-te a última vez e disse a mim mesma:
-Vai embora e leva todo o teu mal contigo!
Contratei mulheres choradeiras
Dessas que choram em velórios
Debruçavam-se no caixão - aos prantos -
Como se ali estivesse um filho morto
Pela primeira vez senti comoção
Com tal belo ensaio!
Mas por dentro eu ria
Quase tendo as entranhas esgarçadas
Para aparentar condescendência a tua desaparição terrena
Te enviei uma coroa de flores
Com a frase mais importante que te desejei
em todos os instantes
vividos:
“O Mal por si só, se destrói!”
Arranquei meu véu preto e pus
um nariz vermelhinho
Em homenagem ao Palhaço Carequinha
O maior artista circense brasileiro
Embora triste, nos transmitia tanta alegria
E declamei sua resposta célebre:
- ''Você tá chorando, Carequinha?''
(O garoto perguntou-lhe com
dificuldade.)
''Não, foi um cisco que entrou no olho'', respondeu.
E os que permaneceram ali presentes
Saíram em burburinhos
Destilando palavras de pura hipocrisia
Já outros despediram-se rindo,
Ou aplaudindo o espetáculo.
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