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Marco Lucchesi


 


Debate sobre a questão da beleza a partir da filosofia de Kant é transformado em livro de ensaios


Jornal de Brasil, Idéias, 15.05.1999
 

 

Daqui a 10 dias, o Rio de Janeiro vai reunir alguns dos principais críticos de arte do Brasil e do Exterior. O seminário internacional "De Baudelaire à crítica contemporânea", promovido pelo Fórum Plural-Idéias Contemporâneas e pela Funarte, em parceria com o Museu de Arte Contemporânea de Niterói e a Uerj, entre 25 e 18 de maio, tem por objetivo mapear a trajetória da crítica de arte moderna, desde aquela exercida inicialmente por poetas e literatos, como Baudelaire, Zola e Apollinaire, até a crescente complexificação teórica da Estética contemporânea. Aproveitando a ocasião propícia para a reflexão sobre a história, a prática e mesmo o sentido da crítica de arte, o Idéias publica um número especialmente dedicado ao assunto, ouvindo a opinião de especialistas sobre diversos lançamentos do mercado editorial brasileiro relacionados a esse tema. Assim, o escritor e ensaísta Marco Lucchesi foi convidado a comentar Kant: crítica e estética na modernidade, livro que reúne as conferências apresentadas no seminário internacional Kant em questão, realizado em maio do ano passado. O professor João Cezar de Castro Rocha analisou Convite à Estética, do mexicano Adolfo Sánchez Vazquez; o filósofo José Thomaz Brum saudou a edição em português de Laocoonte, de Lessing; a historiadora da arte Ana Beatriz Siqueira explicou a inovação teórica de Giulio Argan em Clássico e anticlássico, e a crítica Ligia Canongia resumiu o painel das artes plásticas brasileiras traçado por Sergio Paulo Duarte em Anos 60: transformações da arte no Brasil. O Idéias conta ainda com uma entrevista exclusiva com o crítico americano Irving Sandler, uma das estrelas do seminário, dada ao professor e crítico Marco Veloso, e um artigo do historiador de arte belga Thierry De Duve, autor de importantes estudos sobre arte moderna e contemporânea.

 

As razões do belo e seus espectros neoplatônicos torturaram séculos afora pensadores e artistas, causando melancolia e perplexidade; deu sombra às sibilas de Michelangelo, e quase matou Rodin de tanto desespero, adiou no Fausto o encontro, e se tornou promessa para Stendhal, felicidade para Keats, e adiamento para Joyce. Todos abrasados pela Idéia, e que não deixou de tangenciar ligeiramente a obra de Kant, esse vastíssimo oceano que subverteu as plurisseculares interpretações do belo, e que com suas fortes correntezas deslocou outras esferas do sublime, livre de proporções geométricas e iluminações. De modo que - e à revelia do mestre Königsberg - podemos hoje considerar melhor as dissonâncias, presas na obra de Mozart, os resíduos de Proust, as sobras de Deleuze, assim como a ordem dos fractais. Ora, as leituras do sublime, que se fizeram de Kant, desde a tensão entre razão e imaginação, abriram de par em par um horizonte complexo e fascinante para quantos navegaram na superfície de seu oceano-pensamento, cujas considerações abissais demandam, como paradoxo, um pensamento flutuante, que não deixa tocar o fundo. Mas se é infinda a superfície...

Kant: crítica e estética na modernidade é um belo volume que passa a integrar a nossa biblioteca kantiana. E foi Miguel Reale em A doutrina de Kant no Brasil, a demonstrar que o acervo começou com os cadernos do Padre Feijó, embora indiretamente, via Krause, e que tal ocorreu com o fenômeno Tobias Barreto, cujo Kant chegava pelas mãos de um míope como Noiré, e que Tobias fazia questão de elevar aos céus. Farias Brito, por sua vez, rechaçou a transcendência kantiana, em A finalidade do mundo, partindo da exposição de Kuno Fischer. Neste século, o estudo kantiano mergulha no original. O ensaio de Januário Gaffré, A teoria do conhecimento em Kant, embora problemático mereceria reedição. O mesmo em relação ao de Romano Galeffi. Isto sem abordar a influência dos neokantianos, no pensamento jurídico (pela Filosofia do Direito, de Radbruch, como o próprio Reale) e na história, com José Honório Rodrigues, em Teoria da História do Brasil, isto sem recorrer aos ensaios de um Luís Costa Lima, de um Gerd Bornheim e de um Arno Wehling. Dois livros fundamentais que nos concernem direta ou indiretamente: Kant e o fim da metafísica, de Gerard Lebrun, e a tradução da Crítica da faculdade do juízo (1993), por Antônio Marques e Valério Rohden, notável enriquecimento de nossa kantiana. E os títulos não se esgotam nestes.

Assim, pois, a idéia do seminário promovido pelo Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro é parte de uma tradição, e deflagrou, por isso mesmo, um importante debate nos meios acadêmicos, onde se tornaram claras as posições ideológicas de vários intelectuais brasileiros. Kant era um espelho. Falavam de si.

Kant: crítica e estética na modernidade é bem pensado como um todo, e se as conjunções intertextuais não são pequenas, as diferenças, bem entendido, são enormes. De um lado, preservou-se a unidade. De outro, o conflito. Algumas opções como que se excluem, não na aparente superfície, mas em seus desdobramentos, como Paul Crowther e Eric Weil, para ficar apenas com estes dois, sem contar as aproximações luckáesianas, habermasianas, lyotardianas (esta por José Thomáz Brum), indicando quanto é abissal a estética de Kant. É bem verdade que me afino com os textos de Jay Bernstein, com sua moscas e aranhas, e a solução "dentro e fora" da filosofia, segundo a sua estranha metáfora, e que aprecio as instigantes considerações de Antonio Cícero, sobre Kant e os laocoontes de Greenberg e os não-objetos de Ferreira Gullar, e que subscrevo boa parte das considerações de Ricardo Barbosa, e de sua estética discursiva, na qual se associam Habermas e Karl Otto Appel. Além disso, a densidade, o humor e a espessura de alguns textos tratam de forma oblíqua e original, a terceira crítica, mas de um horizonte que não devia faltar em certas escolas de não-belas artes.

Finalmente, Kant: crítica e estética na modernidade mostra com extrema clareza como o chinês de Königsberg é nosso contemporâneo. Como dele se originam as raízes mais fundas da estética. Como dele dependem os rumos das ciências cognitivas deste século, em seus dilemas, é bem verdade, como também, e sobremodo, em seus axiomas. Permanecemos contemporâneos da Crítica. Presos numa teia de fenômenos, longe do mapa das essências e do realismo. Navegantes insistem. Desleitores não faltam. E o Pensamento vive.

Kant: crítica e estética na modernidade
Org. Ileana Pradilla Ceron e Paulo Reis
Editora Senac


* Marco Lucchesi é autor, dentre outros, de O sorriso do caos e Teatro alquímico

 

 

 


 

30/11/2006