Abelardo Romero

     
    ODE A RASUNDA
     
    “As ilustres façanhas se olvidam quando
             as deixamos rodeadas de silêncio”.
                                                    PINDARO
     
     

    Torres coroadas de brasas
    correndo atrás de comboios,
    a rubra boca rotunda
    dois faróis falando às vagas,
    e nas balizas celestes
    pipilo de estranhas aves.
     

    Na orla da noite ornada
    de luzes senta-se o Rio,
    e, na escuridão profunda,
    em vermelho sobre o negro
    datilografa seu augúrio:
    chove amanhã em Rasunda.
     

    A manhã já não divulga
    o chilreio das gaivotas,
    nem o marulho dos cascos
    de potros de escamas alvas
    se contorcendo feridos
    pela chama que os inunda.
     
     
     

    O boi deitado no pasto
    espanta com a orelha bamba
    irisada mosca imunda
    que lhe perturba a audição.
    Galápagos colam o ouvido
    ao planalto ressoante.
     

    Os que falam dentro d’água
    anunciam pelo mundo:
    crisântemos sobre crisântemos
    nas cadeiras numeradas.
    Pálidas bocas ansiosas
    de baleias moribundas.
     

    Bravo! The kings of soccer.
    Sie freunten sich wie die kinder
    Ah, c’est un merveilleux ballet.
    Es tu hijo, madre España!
    Per jovem, il brasile é nato
    col vivo pallone al pie.
     

    Os suecos correm loucos,
    pateiam como corceis
    sobre seu campo de colza.
    Enrugam o rosto no esforço.
    O Brasil baila em alvoroço.
    Brinca com a bola nos pés.
     

    Viena, Londres, Moscou,
    Paris, Berlim e Belfast
    dilatam as órbitas ôcas
    dos vídeos. E em Estocolmo
    a língua dos galhardetes
    vibra por nós em Rasunda.

    Para o céu sobem lianas
    pelas sebes de cimento.
    Mãos e bocas, olhos soltos
    saltando pelas persianas,
    e no lagar dos conventos
    mistura de pranto e mosto.
     

    Sirenes, sinos, girândolas.
    Não se janta. Ninguém ama.
    E os rios descem salobros
    na larga face fecunda.
    Pais e filhos dormem juntos
    sobre os louros de Rasunda.
     

    Remetente : Walter Cid
     Página inicial do JP