Eis aqui um trecho do trabalho de Hamilton de Holanda, presente no site O
Choro em Brasília que traça um histórico desse segmento musical.
Choro: A Forma que se transformou em Gênero
Raul Pederneiras, caricaturista, jornalista e autor de revistas teatrais, publicou em
1922, no Rio de Janeiro, sob a indicação de "Verbetes para um dicionário de
gíria" a seguinte definição para a palavra choro: "Choro - Baile, musicata.
Concerto de flauta, violão e cavaquinho. Música improvisada. Cair no choro,
dançar." A definição é interessante por mostrar que ao iniciar-se a década de
20, considerava-se o choro como uma forma de tocar e não como um gênero musical como é
considerado hoje. Desde a metade do século XIX, o que se chamava de choro era realmente a
música tocada em bailes tendo como formação do conjunto executante os instrumentos:
flauta, responsável pela condução da melodia principal; cavaquinho, centrador de
rítmo,e ; violão harmonizador. Estes conjuntos tocavam gêneros como o maxixe, a polca,
a mazurca - gêneros europeus -, o lundu africano, dando um caráter de improviso a estes
estilos. O mais conhecido dos primeiros líderes de conjuntos de choro é Joaquim Antônio
da Silva Callado, flautista carioca que compôs aquele que é considerado o marco do
início das composições que hoje são consideradas Choro: A Flor Amorosa - ele compôs
como polca e assim está na partitura original -, que mostra a influência que o Choro
sofreu e sofre das danças européias. Cabe ressaltar a importância de não creditarmos o
início do desenvolvimento de um processo social da criação do Choro a apenas um
instrumentista. Apesar disto, é notória a importância de "Callado" na época
da formação dos primeiros grupos de choro e de fixação do estilo. A partir de 1880,
com o aumento do número dos chamados "conjuntos de choro" - agora estes
pequenos conjuntos de flauta, cavaquinho e violão não tocam apenas musicas instrumentais
como também acompanham cantores em modinhas da época - o choro torna-se cada vez mais
popular.
O Gênero Choro: A assimilação de influências
Como estes conjuntos tocavam à base de improviso, começou a desenvolver-se um elemento
fraseológico que chamamos de baixaria. As baixarias são melodias feitas pelo violão,
diferentes das melodias principais executadas pelo instrumento solista - agora não só a
flauta, mas também o ofclide, o bandolim e outros - e que se tornaram uma das
peculiaridades do choro. A partir da década de 20 a música popular começa a sofrer
influência da música comercial norte-americana, fazendo com que antigos instrumentistas
de choro parassem de tocar; outros músicos profissionalizaram-se, aderindo às grandes
"jazz-bands", trocando o já falado ofclide pelo moderno saxofone, demonstrando
um primeiro sintoma da esmagadora influência da música feita nos Estados Unidos. Nesta
época, Alfredo da Rocha Vianna Filho, o conhecido Pixinguinha, passa a tornar-se
conhecido por suas composições e seu estilo de tocar flauta transversal; aderi a
filosofia de Mário de Andrade de que a música estrangeira não deve ser repudiada, mas
sim adaptada ao jeito brasileiro de tocar. O choro instrumental, já se firmando como
gênero musical nascido no estilo de tocar, passa a ganhar letra, tornando-se música
cantada, sob o nome de samba-choro. Os conjuntos de choro passam agora a admitir o uso de
percussão, sendo chamados de regionais de choro, ou simplesmente "regionais". A
partir da Segunda Guerra, o choro transformou-se em mais um dentre os gêneros criados com
o aparecimento da música de consumo ligada aos interesses das grandes gravadoras
internacionais. Apesar disso, sobreviveu, em parte, pela continuidade do estilo de
acompanhamento dos regionais da era do rádio - chegando a promover o surgimento do mestre
da "baixaria" no violão de 7 cordas, Horondino Silva, o Dino 7 cordas - e, pelo
talento de alguns intérpretes e compositores como Pixinguinha, Jacob do Bandolim e seu
conjunto Época de Ouro, Altamiro Carrilho, Benedito Lacerda, Luperce Miranda, entre
outros. Um grande instrumentista e compositor que ajudou para o desenvolvimento e
crescimento do choro foi Waldyr Azevedo, que com seu cavaquinho percorreu o mundo para a
divulgação do choro e de sua música na década de 50 - mais tarde ele mudaria sua
residência para Brasília.
O Choro em Brasília
Na década de 60 quando é inaugurada a nova capital, vários músicos vieram para
Brasília com a finalidade de trabalhar nos conjuntos da Rádio Nacional. Outros,
profissionalizados e não-profissionalizados mudaram para a capital em busca de uma nova
perspectiva de vida. Alguns deles eram músicos de choro, ou simplesmente
"Chorões" , e passaram a produzir este estilo musical na cidade, dando início
ao desenvolvimento das atividades musicais envolvendo o gênero. Dentre eles, Pernambuco
do Pandeiro, João Tomé, Chico Gil, Avena de Castro e outros. Alguns músicos passaram a
reunir-se informalmente em casas de família para executar alguns de seus choros
preferidos; dentre estes choros, alguns eram feitos por eles mesmos, dando continuidade ao
processo de desenvolvimento do choro na cidade, agora com a composição de músicas. Uma
destas casas onde eram feitas as reuniões de músicos era a residência da professora
Odeth Ernest Dias, onde freqüentavam, entre outros, Celso do clarinete, Pernambuco do
Pandeiro, Avena de Castro. A partir daí surgiu a necessidade de oficialização daqueles
encontros; por este motivo, foi criado o primeiro estatuto do Clube do Choro de Brasília,
que ganhou sua sede oficial em 1977. Seu primeiro presidente foi Avena de Castro. Depois
dele, outros passaram pela presidência do clube: Lício da flauta, Six, Américo e
atualmente Reco do Bandolim. O "Choro de Brasília" encontra-se em um contínuo
processo de desenvolvimento e amadurecimento. A cidade já é considerada nacionalmente
como um grande pólo de produção de Choro.
|